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Você já se deparou com a dúvida sobre levar ou não um tema polêmico para a sala de aula, considerando o risco de a turma o receber também de forma polêmica (uns gostarem, outros não)? No texto de hoje, vamos refletir sobre algumas possibilidades. Para reforçar: as ideias apresentadas aqui são possibilidades (em um universo de caminhos que podemos seguir). O objetivo, como sempre, não é se esgotarem as ideias, mas apenas abrir a discussão. Vamos lá?

Iniciar a primeira aula de redação apresentando uma proposta polarizada (concordo ou discordo), como aborto, eutanásia, legalização da maconha, redução da maioridade penal, entre outros, não é recomendável. É quase como se levássemos para a sala de aula uma imagem de Lula ao lado de uma do Bolsonaro: a polêmica se instauraria imediatamente, e, devemos lembrar, somos professores de redação, e a razão deve nortear nossas discussões temáticas com os alunos. Portanto, caso decidamos por levar uma proposta como essas aos alunos, devemos “construir um caminho” para isso antes.

Como?

Em 2016, o dicionário Oxford escolheu como palavra do ano o termo “pós-verdade”, que significa, de forma simplificada, uma relação afetiva, não racional, com a própria verdade. Isso está muito relacionado com o mundo em que vivemos, no qual as opiniões, muitas vezes, tornam-se verdades absolutas. Costumo usar essa ideia nas aulas iniciais com os alunos para discutir que existem “dois mundos”: o pessoal/individual e o da redação, ou o privado e o público. No primeiro, temos liberdade de apresentarmos nossos pontos de vista de acordo com crenças pessoais, religiosas, políticas, etc. (inclusive, eu, professor, falo isso para eles: fora da escola, sou cidadão como qualquer um, tenho minhas opiniões e as expresso como julgo serem adequadas). Claro que o ideal é sempre que essas opiniões não sejam irrefutáveis, mas, se for assim, que seja no Twitter ou outra rede social, por exemplo. Já na dissertação, deixamos de lado essas visões mais particulares de mundo e buscamos embasamento científico, provas concretas para construir as afirmações e sustentá-las de modo crítico. O que eu estou construindo com a turma é que há lugares e espaços em que eu posso “achar” as coisas; há, por outro lado, a construção crítica na dissertação, em que o “achismo” não tem vez. Isso é importante para deixarmos claro que os temas apresentados e sugeridos à sala não são pessoais.

Iniciada essa discussão, podemos pensar em um exemplo do cotidiano da sala de aula e refletir sobre a construção do argumento numa perspectiva pautada na razão, como, por exemplo, a “Cultura do cancelamento”.

Podemos questionar se faz sentido cancelar um artista, ou tentar boicotar alguém, simplesmente por não gostar dele ou dela. Considerando a resposta majoritária negativa, podem-se apresentar no quadro ideias racionais que expliquem esse comportamento:

  • Condutas imediatistas e “no calor do momento”;
  • A passionalidade do brasileiro – agir pelo coração, e não pela razão – ponte com a ideia de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda;
  • Maior tendência de julgar e criticar o outro do que a si mesmo, situação comum nas redes sociais;
  •  Polarização social, em que, também por meio das redes sociais, criam-se bolhas ideológicas que não debatem; afastam-se cada vez mais. 

Desse modo, partindo de um tema que normalmente é pauta entre os jovens, podemos deixar clara a importância de a dissertação ser um gênero no qual as emoções ficam de fora. Ao longo das aulas iniciais, portanto, é interessante propor temáticas próximas do universo dos alunos, pois se aumentam as chances de debates participativos e que explorem o senso crítico deles. Além disso, nesse processo conheceremos nossos alunos, as características deles, e será possível considerar quais propostas fazem mais sentido para aquela série.

Finalmente, falar com a sala sobre a possibilidade da temática da próxima aula (seja ela polêmica ou não) é um ótimo caminho, pois reforçará o reconhecimento da opinião dos alunos (pode ser que a maioria queira aquela discussão; pode ser que não). Outro aspecto possível é conversar com a coordenação, e avaliar se há algum impedimento em se tratar de algum assunto específico.

O diálogo é, portanto, o melhor caminho para um trabalho de sucesso que mantenha alunos, professores e pais confortáveis. Se deixamos claro, desde o início, que nosso trabalho visa à formação crítica dos alunos, sem desconsiderar as vivências de cada um, mas prezando pela argumentação baseada em fatos, quaisquer temáticas podem ser trabalhadas (desde que consideremos, claro, a idade média da turma e o motivo de se trabalhar determinada proposta).

Quer sugerir conteúdos para nossos textos? Compartilhar suas práticas com temas polêmicos em sala de aula? Escreva aqui nos comentários e nos siga no perfil do Instagram @aceleraprof. Seguimos juntos! Até o próximo texto!!



Eduardo Zenon
Escrito Por
Eduardo Zenon

Professor de redação e coordenador na Pontue, é formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia.

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