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Antes de chegarmos ao tema central do texto de hoje, voltemos ao artigo 5º da Constituição de 1988, a qual determina que

a educação, direito de todos e dever do Estado e da família,
será promovida e incentivada com a colaboração da
sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu
preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para
o trabalho (BRASIL, 1988).

É importante reforçar: a educação deve ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, e é dever do Estado e da família. 

Lembram-se de quando falamos sobre “pais-helicópteros”? O texto completo está aqui. Eles estão girando em torno dos filhos, superprotegendo-os de frustrações e, muitas vezes, realizam as atividades escolares no lugar dos estudantes. Certamente, não é esse incentivo à educação e desenvolvimento da pessoa que se espera do âmbito familiar. O ambiente escolar, contudo, parece ser de desunião e pouco engajado na transformação dessa realidade: professores não dialogam entre si e pouco olham para as necessidades e características dos alunos; estes, em geral, sentem-se desmotivados com aulas seminário as quais são, majoritariamente, conteudistas e pouco voltadas à realidade do século XXI. Por fim, e não menos importante (aliás, são parte fundamental no processo de ensino-aprendizagem) muitos pais deixam de participar (ou participam até demais, escrevendo as redações dos filhos, por exemplo) da rotina escolar.

É possível, nesse contexto, trazer a família para a escola? Pergunto mais: é possível ensinar aos pais que eles devem cobrar a autonomia dos filhos na rotina de estudo?

Se a Base Nacional Comum Curricular for colocada em prática, a resposta é sim para essas e outras perguntas. Vejamos um trecho da própria BNCC ao tratar sobre as expectativas para o Ensino Fundamental:

No Ensino Fundamental, a BNCC se concentra no processo de tomada de consciência do Eu, do Outro e do Nós, das diferenças em relação ao Outro e das diversas formas de organização da família e da sociedade em diferentes espaços e épocas históricas. Tais relações são pautadas pelas noções de indivíduo e de sociedade, categorias tributárias da noção de philia, amizade, cooperação, de um conhecimento de si mesmo e do Outro com vistas a um saber agir conjunto e ético. Além disso, ao explorar variadas problemáticas próprias de Geografia e de História, prevê que os estudantes explorem diversos conhecimentos próprios das Ciências Humanas: noções de temporalidade, espacialidade e diversidade (de gênero, religião, tradições étnicas etc.); conhecimentos sobre os modos de organizar a sociedade e sobre as relações de produção, trabalho e de poder, sem deixar de lado o processo de transformação de cada indivíduo, da escola, da comunidade e do mundo. (O texto completo, você encontra aqui).

Se buscamos, enquanto gestores de escolas, professores, pais e membros de uma sociedade, ter consciência do Eu, do Outro e do Nós, é fundamental considerarmos a escola como um espaço em que esses sujeitos possam interagir e aprender em conjunto, e os pais fazem parte desse processo.

É hora de as escolas criarem uma cultura de diálogo e reforçar o tripé Instituição de ensino, Pais e Alunos. Em relatório divulgado em fevereiro de 2016 pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a participação dos pais resulta em melhores notas, além de melhorar o clima e, até mesmo, reduzir a indisciplina. Esses impactos são positivos independentemente da origem social do estudante.

Vocês, professores ou gestores, já passaram pela situação de pais ou mães os procurarem para tratar de algum assunto, e a escola não estar preparada para acolhê-los? Ou você, pai/mãe, acredita que apenas a escola deve entrar em contato quando for necessário? Nesse “troca-troca” de responsabilidades, ou,  de forma mais objetiva, apenas quando essa inércia for rompida e for criada uma agenda positiva, haverá aproximação de todos os agentes escolares, em todo o ano letivo.

“Em artigo publicado em fevereiro de 2016 no site do Harvard Family Research Project (Centro de Pesquisas sobre Famílias de Harvard), a pesquisadora Elena Lopez defende que é preciso, antes de tudo, gerar empatia entre pais e os atores da escola: “Uma abordagem centrada no ser humano começa com empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro e imaginar o que aquela pessoa sente e vivencia. Desenvolver essa atitude é uma maneira de trocar um modelo baseado apenas no que os educadores pensam que as famílias querem e precisam por uma abordagem que considere aquilo que as famílias efetivamente desejam e valorizam”.” (Fonte: aprendizagem em foco).   

Vamos ver algumas possibilidades?

1- A escola pode designar um profissional responsável pelo relacionamento com os familiares e a comunidade, o qual desenvolverá estratégias que reforcem a participação das famílias em reuniões, atenderá pais e responsáveis na escola e suas respectivas dúvidas, fará visitas domiciliares preventivas (casos em que haja risco de evasão, por exemplo), estimulará o trabalho voluntário de pais e alunos (em festas escolares, gincanas e, até mesmo, reuniões bimestrais), entre outras ações.

2- Uma ação interessante é criar grupos de formação para pais sobre temas relacionados à escola, aos alunos e/ou a conteúdos curriculares. Por exemplo: temos um grupo de alunos com baixo desempenho escolar, que terão aulas específicas no contra turno. Haverá, em conjunto, a formação de um grupo com os pais desses alunos, e eles receberão orientações sobre como estudar a matéria com os filhos, complementando o trabalho feito em sala de aula.

3 – Ampliação dos meios de comunicação entre escola e pais (grupos de WhatsApp para cada turma, com envio de informações sobre reuniões e atividades escolares, e páginas da escola em redes sociais, como o Facebook, para que haja maior interação). São medidas simples, mas que contribuem para criar uma sensação de identidade entre todos com a escola.

Vejamos mais uma parte da BNCC, não para concluir esse assunto, mas para deixar clara a importância de pensarmos a educação em conjunto, construindo pontes, como sempre acreditamos por aqui:

A sociedade contemporânea impõe um olhar inovador e inclusivo a questões centrais do processo educativo: o que aprender, para que aprender, como ensinar, como promover redes de aprendizagem colaborativa e como avaliar o aprendizado.

No novo cenário mundial, reconhecer-se em seu contexto histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, analítico-crítico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente, produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo de informações. Requer o desenvolvimento de competências para aprender a aprender, saber lidar com a informação cada vez mais disponível, atuar com discernimento e responsabilidade nos contextos das culturas digitais, aplicar conhecimentos para resolver problemas, ter autonomia para tomar decisões, ser proativo para identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver e aprender com as diferenças e as
diversidades. (Fonte: BNCC – Ensino Médio). 

Definitivamente, não podemos almejar tantos objetivos sozinhos. Na Pontue, acreditamos no potencial de cada agente social para transformar realidades, para melhor. Aos pais que estiverem lendo esse texto, garanto: vocês são essenciais para o nosso trabalho dentro da sala de aula. Aos professores que nos leem:

Eu quero desaprender para aprender de novo.
Raspar as tintas com que me pintaram.
Desencaixotar emoções, recuperar sentidos. (Ruben Alves)

Vamos aprender como o ensino pode ser mais diálogo, e menos afastamento? Acelera, prof.



Eduardo Zenon
Escrito Por
Eduardo Zenon

Professor de redação e coordenador na Pontue, é formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia.

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