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As provas dos diferentes vestibulares, sejam elas de instituições públicas ou privadas, possuem uma “personalidade própria”. O mesmo ocorre com as provas de redação, e, certamente, vale essa regra no processo de correção (cada grade tem a sua “peculiaridade”). No ENEM, exige-se Proposta de Intervenção e operadores argumentativos; para a USP, repertórios socioculturais intrínsecos ao texto. E na redação Unesp, o que deve ser feito? Vamos descobrir juntos no decorrer desses 5 posts!

No post de estreia dessa modalidade de correção, vamos falar a respeito da grade A, em que devemos avaliar o famigerado “tratamento do tema” pelo candidato.

O que devemos avaliar aqui?

2 critérios:

    1. Leitura da coletânea e bom entendimento das questões suscitadas por ela;
    2. Resposta à proposição colocada pelo título da proposta em conjunto com as discussões levantadas pelos textos de apoio.

Isso quer dizer que não basta que o aluno apenas discuta o que for trazido pelos textos motivadores, e, também, não é suficiente que ele apenas insira, no texto, as palavras-chave do tema. Ambas precisam viver em simbiose na redação: o aluno precisa encontrar a relação entre o tema e os textos motivadores para, com eles, construir a tese. É evidente que o corretor precisa, também, analisar com muita cautela toda a proposta.

Vamos ver na prática como podemos sugerir a leitura do tema + textos de apoio em sala de aula?

O tema da redação Unesp 2020 foi “O carro será o novo cigarro?”. Um tema bastante complexo de ser entendido, visto que é muito abrangente e, sozinho, não dá ao aluno a “chave” para escrever uma redação. É justamente para guiar o aluno – e o corretor – que existem os textos de apoio. São eles:

    1. Um trecho do manifesto futurista de Marinetti, em que este louva o desenvolvimento da máquina, nomeadamente o carro, e despreza tudo o que é antigo;
    2. Um poema de Drummond em que fica clara a dependência humana em relação aos automóveis;
    3. Uma tirinha de André Dahmer que critica a predominância espacial dos carros, pois confere aos humanos um espaço inferior, diminuído;
    4. Mais longo, traz uma citação do ex-prefeito de Curitiba e arquiteto Jaime Lerner o qual afirma: “você poderá continuar a usar (o carro), mas as pessoas se irritarão por isso”, assim como acontece atualmente com o cigarro.

Nota-se, em uma leitura atenta da coletânea na sua integridade, uma mudança radical entre o que afirmou Marinetti e as percepções de Drummond, Dahmer e Lerner. O cigarro aparece apenas no quarto texto, em comparação ao carro, sinalizando ao aluno a pista de leitura da proposta: o cigarro, que já foi muito “chic” antigamente, tornou-se um elemento mal visto, e os fumantes, que antes atrapalhavam os não praticantes do cigarro e os impediam de ir a determinados ambientes (bares e boates lotados de fumaça) hoje estão restritos às áreas de fumante. O mesmo, então, se dá com os carros: hoje, coordenam a vida moderna – conforme Drummond: se eles param, a vida pára – e os que estão à pé circulam no subterrâneo (metrôs) e nas faixas de pedestre, sempre atentos às buzinas; todavia, para um mundo de trânsito sustentável, é preciso que os carros sejam colocados nas suas “áreas de fumantes” (rodízios, transporte coletivo prioritário etc). Depois do embate fumante versus não fumante e pedestre versus motorista, o tema põe o questionamento: o carro, antes estandarte do progresso, vai passar a ser visto como um problema social?

É importantíssimo nunca deixar os alunos se esquecerem de ler, também, a referência do texto de apoio (autor, local de publicação e ano). Nesse caso, ter conhecimento das datas de publicação de cada um dos textos é uma informação que não poderia passar despercebida de jeito nenhum, porque é o que nos mostra a mudança de pensamento no decorrer do tempo.

Não basta, logo, que o aluno faça qualquer associação entre carro e cigarro (além da rima, que, embora simples, já vem de graça) para ter a nota máxima nesse critério. É preciso que ele demonstre, de fato, ter entendido por que dois objetos tão diferentes estão em um mesmo tema.

E como vamos saber se o aluno entendeu o tema em conjunto com a coletânea?
Para a avaliação do critério A, não podemos nos ater apenas à introdução, argumentação ou conclusão, mas precisamos conhecer o todo do texto. Mesmo que a argumentação tenha alguns problemas ou que o autor da redação não domine totalmente o gênero exigido, ele pode ter feito uma ótima leitura temática. Vamos, então, procurar:

    1. Palavras-chave relacionadas ao tema;
    2. Relações de sentido possibilitadas apenas por uma leitura crítica dos textos de apoio (por que, afinal, o carro seria o novo cigarro?);
    3. Resposta da proposição feita (será o novo cigarro ou não?).

É evidente que esses questionamentos podem variar de proposta para proposta, mas a essência aqui é relacionar TEMA e COLETÂNEA de maneira lógica, que corresponda à leitura prévia feita pelo corretor.

E se o aluno tangenciou o tema ou fugiu dele? Como ajudá-lo?

Nesses casos, é sempre importante frisar que todas as palavras-chave que compõem o título do tema são importantes e que precisam estar articuladas no texto.

Um bom exercício é propor ao aluno utilizar todas as palavras-chave já na introdução, porque, uma vez que ele fizer isso, a estrutura do texto já estará contemplando todos os aspectos temáticos, e a argumentação ficará mais organizada a partir desse esqueleto. Outra possibilidade, para aqueles que tiverem mais dificuldades e/ou para temas mais complexos, é propor um mapa de leitura:

Vamos, então, supor que o aluno desenvolveu todo o tema mas não usou bem a coletânea. O que o professor pode sugerir?

Uma boa ideia é explicar que todos os textos da coletânea são minuciosamente escolhidos, e que encontrar a ligação entre TODOS eles e o tema é uma questão obrigatória para uma boa redação. Uma leitura atenta da coletânea, nunca perdendo de vista qual é o título do tema, com certeza vai ajudar a encontrar a linha que une todos esses elementos, porque nenhum deles está ali “porque sim”. Se o maior problema da produção textual for esse, vale à pena investir alguns minutos explicando os textos da coletânea e a função deles na proposta, para que os alunos consigam fazer o mesmo processo depois, sozinhos. A interpretação de texto é FUNDAMENTAL nesse processo, e isso pode (e deve), ser ensinado também pelo professor de redação.



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Escrito Por
Jéssica Angeli

Professora de francês, literatura e redação. Formada em Letras pela UNESP Araraquara. Faz parte da equipe da Pontue e do @AceleraProf.

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