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Aristóteles afirmou que o homem é um ser social. A filosofia, por muitos séculos, deteve-se na relação entre os homens e nas consequências dessa interação. Paulo Leminski, em uma linguagem muito menos objetiva, escreveu:
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
[…]

O “Contranarciso” do poeta contemporâneo estabelece uma intertextualidade com o mito grego de Narciso que, incapaz de retribuir o amor que as ninfas lhe dedicavam, acabou sendo amaldiçoado por Nêmesis a perseguir sua própria imagem.

Narciso, embora fosse um homem, tinha em si muito pouca humanidade naquilo que concerne em enxergar o próximo. Então, o destino de quem é centrado apenas em si mesmo e não percebe o outro parece ser a alienação, análoga a definhar à beira do lago, alheio, tentando tocar a si próprio. E eu uso a palavra “alienação” propositadamente: como sabemos o que são o amor, a amizade, o companheirismo, e também a raiva, o ciúme e a inveja? Interagindo com o outro. Quem se priva desse contato, portanto, corre o risco de saber tão pouco sobre seus próprios sentimentos a ponto de se tornar um ser alienado sobre si mesmo.

Quando pensamos no espaço escolar, nos vem primeiro o ensino de conteúdos pragmáticos: objetivos, imutáveis e avaliáveis. Porém, a escola é muito mais do que isso, pois é um espaço de interação com o outro, de troca e de aprendizagem de habilidades que estão além de português e matemática (isso para os alunos e, também, para nós, professores). Agora, que nos vemos privados das risadas na sala, das conversas de corredor e do café com os colegas na hora do intervalo, percebemos o quanto isso nos faz falta. Peço licença para fazer um raciocínio muito simples. Se faz falta, é importante, mas por que é importante, se, em tese, não estamos aprendendo “nada”? Nem tudo que aprendemos pode ser medido com uma prova, mas nem por isso pode ser chamado de nada. Então, as conversas fiadas sem nenhum objetivo aparente são importantes? Muito. Se você só interagiu com pessoas, nesses últimos meses, para ensinar matéria, você sabe do que estou falando.

Por outro lado, as aulas continuam a acontecer virtualmente. Contudo, à distância, embora o conteúdo em si seja transmitido, a interação sofreu um grande prejuízo, e o tédio, a essa altura, já começa a ser visível nos alunos e nos professores. Além disso, há o problema de que todo mundo – inclusive eu – nos queixamos: os alunos ficam sem câmera, som, ou sem dar sinal de vida, porque o anonimato é confortável. Segundo que a separação entre “casa” e “escola” precisa ser melhor desenvolvida. Isso porque o homework obrigatório nos pegou de surpresa e ainda não conseguimos separar com segurança quais são os limites entre o descanso e o trabalho quando não saímos de um ambiente que antes era dedicado, majoritariamente, apenas ao repouso. Seguramente os alunos podem nos ver como invasores do seu espaço privado (assim como nós pensamos o mesmo, não raro). Tudo isso é fruto da nossa inaptidão para lidar com o homework.

Eu tenho um amigo tradutor que sempre trabalhou em casa, e um dia percebeu que precisava fazer a diferenciação entre trabalho e descanso a partir das roupas; nas suas palavras, a única diferença entre ele trabalhando e um mendigo era que ele não tinha um carrinho de supermercado para empurrar pela casa. Então, para nós e para os alunos, esses limites também precisam ser melhor estabelecidos.

O que eu quero dizer com tudo isso?

O conteúdo pode ser transmitido assincronicamente, de maneira virtual, mas isso jamais será suficiente para substituir o espaço físico da escola, em que desenvolvemos e aprimoramos capacidades socioemocionais, sentido de liderança, aptidão para lidar com os conflitos e, claro, temos o prazer de interagir frente a frente com nossos semelhantes. Como já discutimos aqui, a tendência é que, daqui para os anos seguintes, comecemos a adotar o ensino híbrido, em que casa e escola caminharão juntas: em casa ficam os conteúdos que o aluno puder desenvolver de maneira autônoma, por meio do seu próprio método de aprendizagem, evidentemente, com o professor como guia; a escola, então, fica centrada na aprendizagem, mas, também, na interação social. Assim, longe de ser um cenário apocalíptico, o ensino híbrido oferece muitas vantagens. Contudo, precisamos aprender a criar uma rotina que envolva o espaço domiciliar, porque a fluidez entre lazer e trabalho prejudica ambos: nos divertimos pensando em trabalho e trabalhamos de pijama ou assistindo à TV. Por fim, quando pudermos voltar a interagir socialmente, pouco a pouco, haverá o equilíbrio necessário entre o perto e o distante que agora nos falta.

Por fim, o que as aulas à distância nos ensinaram sobre a escola física, portanto, é que ela é insubstituível porque
[…]o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
[…]

O contranarciso que há em mim saúda o contranarciso que há em você.



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Escrito Por
Jéssica Angeli

Professora de francês, literatura e redação. Formada em Letras pela UNESP Araraquara. Faz parte da equipe da Pontue e do @AceleraProf.

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