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Depois de termos discutido o que é a tese e como ela pode ser apresentada na introdução da redação modelo UNESP, vamos ver o desenvolvimento dessa tese nos parágrafos subsequentes? Então, vamos falar da segunda parte dos textos de modelo dissertativo argumentativo: o desenvolvimento.

Desenvolvimento:

Muito bem: a tese está explícita na introdução e foi elaborada de forma clara, conforme vimos no post anterior; e agora?

Nos parágrafos de desenvolvimento, o aluno vai trabalhar a tese, trazendo argumentos e discussões que sustentem a discussão proposta por ele. Nesse aspecto, alguns equívocos são bem comuns. Vamos discutir três deles? A introdução não “orna” com o desenvolvimento; falhas argumentativas; contradições.

Problema 1: A introdução não “orna” com o desenvolvimento.

Essa questão é muito comum e pode estar relacionada a 2 fatores principais:

1) A tese é tão complexa e tem tantos elementos diferentes que o aluno não consegue se aprofundar em todos eles no desenvolvimento. Solução: menos é mais.

Uma prática que facilita bastante a organização da correção é sempre grifar a tese e os argumentos que a sustentam. Desse modo, no momento de corrigir o restante do texto, o avaliador saberá quais informações são obrigatórias para que a tese esteja bem defendida.

Muitas vezes, os alunos, durante a exposição do tema pelo professor ou no decorrer da pesquisa independente para aprender mais sobre o tema, acabam inserindo muitas informações diferentes na tese. Se a introdução apresenta, por exemplo, 4 argumentos diferentes que constroem, juntos, a tese, é difícil imaginar como, nas 25 linhas restantes, ele vai conseguir desenvolver perfeitamente todos eles.

Embora seja, sim, possível trabalhar com vários argumentos, para os alunos que ainda não dominam a estrutura é interessante ressaltar que se pode escolher, sem prejuízo algum na correção, dois argumentos principais para sustentar a tese. Assim, cada argumento pode ser desenvolvido em um parágrafo do desenvolvimento, e eles terão espaço na folha para serem bem trabalhados, sem deixar pontas soltas no texto.

2) O aluno aponta argumentos para construir a tese e, no decorrer do desenvolvimento, não aborda nenhum deles, ou apenas alguns. Solução: organização!

Nesses casos, infelizmente, a tese apresentada no texto fica falha, e esse é um problema argumentativo de alta gravidade. Para resolver, uma opção é aconselhar aos alunos que façam o mesmo processo que adotamos na correção: aluno, marque a sua tese e os seus argumentos principais; depois, faça um roteiro: um argumento no primeiro parágrafo e o outro no segundo. Se houver organização na hora de escrever o texto, já é meio caminho andado.

Problema 2: O texto tem falhas argumentativas. Solução: sair da redação e reler o texto.

Os argumentos principais da tese são abordados, mas o leitor se coloca perguntas que não são respondidas pelo texto:

– Qual é o problema gerado por essa situação?
– De onde você tirou essa informação?
– Como você chegou a essa conclusão?
– Como isso acontece?
– Por que isso acontece?

Conforme a argumentação toda foi construída na cabeça do aluno, tudo é muito claro para ele – é óbvio. Mas, muitas vezes, ele, por ter tanta clareza do seu encadeamento de ideias, não insere no texto todas as informações-chave para que o leitor consiga compreendê-lo. O problema dessa situação é que, quando pensamos em uma redação de modelo dissertativo argumentativo, encontramos a tese e argumentos que levantam dúvidas.

A questão central aqui é que o leitor não pode trazer deduções ou reflexões externas ao texto para resolvê-las e compreender o texto na sua totalidade. O que isso quer dizer? Todas as informações necessárias para o entendimento da redação precisam estar no próprio texto.

Uma dica bacana para que os alunos evitem deixar essas “pontas soltas” é reler o texto como se fossem alguém que não conhece o tema, com o qual está tendo o primeiro contato a partir daquele texto. Se ele encontrar perguntas geradas mas não respondidas pelo texto, é porque há falhas argumentativas.

Problema 3: Texto ingênuo. Solução: análise crítica da coletânea e do tema.

Cabelo ok, sobrancelha ok, maquiagem ok, a unha tá ok. Os argumentos estão ok e a tese está ok. Contudo, faltam a profundidade e a criticidade que se espera de um aluno candidato ao vestibular.

Vamos usar como exemplo o tema “Compro, logo existo?” de 2019. Suponhamos o seguinte argumento:

“As pessoas hoje em dia só querem saber de comprar. Assim, não se preocupam em estudar nem com fazer boas escolhas. Principalmente os jovens são capazes de gastar um salário mínimo em uma calça ‘de marca’ apenas para serem notados nas festas ou serem populares na escola. Essa situação é ruim porque os indivíduos têm gastado dinheiro com bens supérfluos e não com objetos realmente úteis para as vidas deles”.

Ao lermos os textos motivadores desse tema, percebemos que não se trata de uma discussão apenas sobre quanto custa o outfit, mas sobre apenas existirmos se consumimos. Uma vez que a existência é pautada na aquisição de bens de consumo, vários problemas mais complexos do que os apontados no parágrafo acima surgem, como: o trabalho se torna supervalorizado, visto que, sem dinheiro, não compramos; a partir do momento em que ter e ser são sinônimos, descontam-se as frustrações e desilusões em compras ao invés de encará-las visando ao amadurecimento; o endividamento passa a ocorrer com maior frequência. Não se pretende esgotar aqui a pluralidade de argumentos que poderiam ter sido utilizados para debater esse tema tão amplo, mas evidenciar que os textos motivadores devem ser encarados com criticidade e que os clichês e discussões superficiais devem, sempre, ficar fora da redação.



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Escrito Por
Jéssica Angeli

Professora de francês, literatura e redação. Formada em Letras pela UNESP Araraquara. Faz parte da equipe da Pontue e do @AceleraProf.

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