Como falar de política usando Sérgio Buarque de Holanda e Netflix? - Pontue
Política na escola usando Netflix
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Mesmo que você não tenha acompanhado a eleição do Fernando Collor, certamente sabe de toda a polêmica envolvida antes, durante e depois da candidatura dele. À época, circulava um boato de que o “Caçador de Marajás” só teria ganho o posto presidencial por ser bonito (sim, bonito). É fato que circulavam revistas em cujas capas ele aparecia jogando tênis ou com pose de galã, mas será que isso influenciou as decisões?

E a resposta é: sim. De acordo com uma pesquisa do MIT, políticos charmosos têm muito mais chances de serem os mais votados e, segundo a Istoé, é muito provável que isso tenha ajudado o Collor.

(https://istoe.com.br/98248_E+CIENTIFICO+BOA+PINTA+GANHA+VOTO)

… e deu no que deu. Viver é relembrar:

Collor sofre impeachment por denúncias de corrupção

 

Com a popularização das mídias, é possível que a transmissão de informações de maneira mais expandida tenha intensificado, também, a afetuosidade que nutrimos pelos cantores, atrizes, apresentadores etc. Isso porque, evidentemente, podemos conhecê-los – ainda que sem verdade alguma – e admirá-los. Contudo, os políticos também estão inseridos nesse meio, como aconteceu com o próprio Collor, que se valeu, e muito bem, de revistas, jornais e da televisão para conquistar o eleitorado.

Um outro bom exemplo é o que aconteceu com o ex-deputado Wallace Souza. Ele apresentava o programa Canal Livre e, à moda de Datena, denunciava crimes, muitas das vezes ao vivo, com o carro da reportagem seguindo a polícia na hora da prisão dos criminosos. Ele adquiriu uma fama de caçador de bandidos a ponto de ser um dos deputados estaduais mais bem votados da história de Manaus quando se candidatou. Contudo, depois foram descobertos vários indícios de que ele poderia ser o mandante dos crimes que ele mesmo televisionava. Isso tudo para ganhar IBOPE e o amor do povo.

 

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A história toda pode ser acompanhada na minissérie “Bandidos na TV”, da Netflix, que expõe os dois lados da história – defesa e acusação – e é um ótimo entretenimento.

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Se isso tudo acontecia nos anos 90 e na primeira década de 2000, respectivamente, imagine agora com a popularização em massa da internet! Nós nos tornamos flâneurs que vivem à volta das pessoas que admiramos e sensação de proximidade é ainda maior! 

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Os políticos, evidentemente, entraram na onda e a exposição da vida privada, o apelo ao emocional e a espetacularização dos acontecimentos se tornaram frequentes. Eles estão se tornando popstars, inclusive no tratamento da própria imagem para que ela seja atrativa, mas não verdadeira. Diante dessa estratégia baixa de maquiar a politicagem via mídias sociais, está o brasileiro sem defesa alguma, já que, como afirmou Sérgio Buarque de Holanda, ele é um homem cordial.

Quando ele escreveu essa teoria, não fez exatamente um elogio. É claro que a solicitude e a simpatia do brasileiro são conhecidas mundo afora e todo mundo que já foi a Minas Gerais sabe que essa fama tem razão de ser. Contudo, Sérgio Buarque se referia mais especificamente à ênfase que o brasileiro dá à emoção em detrimento da razão. Essa característica é uma boa teoria para explicar a relação que se nutriu pelos políticos citados acima e as discussões políticas atuais, que não raro acabam em exclusões no Facebook, bloqueios no whatsapp e até brigas físicas. 

Logo, se uma pessoa é bonita e cativante (como o Collor), famosa e que proporciona entretenimento e senso de justiça (como o Wallace Souza) ou oferece, direta ou indiretamente, ao cidadão algo que ele considere um benefício, este se tornará um fã, como poderia ser fã dos Beatles ou da Fernanda Montenegro. Contudo, na política, mais do que qualquer outra área, deve-se exigir, cobrar e vigiar.

Vamos perder o medo de assuntos polêmicos e falar um pouquinho de política com os alunos? Acelera, prof!



Jéssica Angeli
Escrito Por
Jéssica Angeli

Professora formada em Letras pela UNESP Araraquara. Faz parte da equipe da Pontue e do @AceleraProf e, juntos, acreditamos no poder transformador da educação.

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