Como descancelar o Machado de Assis na aula de redação? - Pontue
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“Ah, prof., mas Machado é muito chato!”.

Não há profissional da educação que nunca tenha ouvido essa frase sem ter um início de aneurisma, não é mesmo? E aí, a pergunta que vem à nossa cabeça é: “quem foi que cortou o Machado?”. O trocadilho é ruim, mas o sentimento é real.

Quando essa frase sai da boca de uma pessoa que influencia milhares de jovens, muitos deles, que nunca sequer abriram um livro do Machado, vão criar o famoso ranço, e aí, professor, cabe a nós resolvermos a treta.

Por um lado, é uma pena que existam muitos professores por aí que defendem única e exclusivamente a leitura do “cânone”. Não vou entrar nesse mérito de discutir o que raios seria esse tal de cânone, porque é polêmica demais. Vamos pegar pelo viés da importância da leitura, que é universal: seja de Machado ou de Harry Potter, ela é sempre bem-vinda.

Pode ler Jogos Vorazes? DEVE! Mas é importante também conhecer os nossos imortais. Afinal de contas, se o Machado está tão vivo, mesmo estando morto (autor defunto, nesse caso), algum motivo existe para isso! E o estudante que defende a ideia de que o Machado é chato faz isso porque ouviu de alguém – de repente de algum youtuber – e/ou não foi devidamente apresentado a ele. Então, vamos fazer as honras?

Prazer, Machado de Assis.

E como fazer isso na aula de redação? Já pensou só se o aluno, além de ler Machado para a prova de literatura, ainda usa o livro como repertório para a redação? Ou se consegue estabelecer uma relação entre a literatura, que é ficcional, mas, ao mesmo tempo, um reflexo da sociedade, e a realidade em que ele vive? EITA! Então, vamos?

Primeiro, o Machado era negro e epilético e, mesmo assim, respeitadíssimo ainda em vida, no século XIX. Mas como não? Um currículo com Dom Casmurro (1899), Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891) não é nada mau. Além disso, são centenas de crônicas e contos que ora nos dão uma porrada, ora tiram sarro da nossa suposta ingenuidade de leitor criado por vó. Quem não sente um calorzinho no coração ao ser chamado de “ingênuo leitor” pelo Machado? Vamos ver como ele é legal?

Em Dom Casmurro, o Bentinho – que depois involui para Dom Casmurro -, passa boa parte da sua vida tentando entender a Capitu, mas nunca consegue, afinal de contas, segundo o próprio narrador, “ela era mais mulher do que eu era homem”. Existe, então, uma necessidade de domínio da figura masculina sobre a feminina que não é resolvida, uma característica do patriarcalismo que pode ser usada em um tema de redação que apresente essa palavra-chave. No fim, o tapa na cara da sociedade que o Machado deu foi: nem Bentinho, nem dom Casmurro, nem você, tolo leitor, saberão quem foi Capitu! E isso porque, se o narrador do livro não conseguiu dar sequer uma característica dela, quem poderia dar? Fica, então, a Capitu como “nosso totem tabu, a mulher em milhares”, como canta o Luiz Tatit.

Já no Memórias Póstumas, o Brás Cubas é a síntese do burguês safado que ainda tem a cara de pau de falar para o leitor: olha, eu fiz muita coisa errada em vida – fui ladrão, aproveitador e “falsiane” – mas, agora que eu morri, não ligo mais para nada e vou contar tudo. Um dos muitos episódios reprováveis protagonizados pelo defunto-autor é aquele em que ele desdenha de Eugênia, muito bonita, porém, coxa:

 Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro.

Que tal sugerir o uso desse repertório em um tema sobre o preconceito em relação às pessoas com diversidade funcional, ou sobre a ditadura da perfeição a qualquer custo?

Quincas Borba, agora inserido na lista da FUVEST, traz a célebre filosofia do Humanitismo: “ao vencedor, as batatas”. Por trás dessa frase, dita pelo Quincas Borba, que já não andava batendo bem, existe uma ideia genial: se não houver recursos suficientes para todos, surgirá uma competição entre os homens, e apenas os mais aptos terão aquilo de que precisam para sobreviver, enquanto os demais receberão apenas compaixão ou ódio. Não é isso que acontece com o pobre do Rubião, quando teve toda a herança que recebeu surrupiada pelo casal Cristiano e Sofia? Seria uma boa sacada usar esse repertório para discutir diferenças socioeconômicas – vencedores, com suas respectivas batatas, de um lado, e miseráveis de outro -, concorda?

Para fechar, vamos falar sobre um dos contos mais emblemáticos do Machado: “Pai contra mãe“. Nesse conto, uma negra escrava foge já com a gravidez avançada e é capturada por um recém-pai, que a entrega para o seu “dono” para receber a recompensa, com a qual teria condições de criar o seu filho e não precisaria dá-lo para doação. No meio do processo de captura, a escrava sofre um aborto espontâneo. Pai contra mãe. Pesado, não é? Apropriado para um tema tão duro quanto o racismo; então, pode ser uma dica bacana para os seus alunos – inclusive para crescimento humanitário ; )

Então, professor(a), não jogue a toalha! Sempre que ouvir essa frase, que tal ir ganhando o seu aluno pelos contos e crônicas do Machado e, depois, sugerir um romance com a leitura devidamente guiada? Desde o século XIX, o Machado, muito maroto espertalhão, tira sarro dos leitores dizendo que nós não somos capazes de entendê-lo (errado ele não está); só que, embora a gente ame o Machado, mais negócio é esfregar na cara dele que aqui ninguém é criado a leite com pera, não.



Jéssica Angeli
Escrito Por
Jéssica Angeli

Professora formada em Letras pela UNESP Araraquara. Faz parte da equipe da Pontue e do @AceleraProf e, juntos, acreditamos no poder transformador da educação.

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