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Quanto mais a gente realiza uma atividade, mais aquela ação vai se tornando automática, até chegar ao ponto em que nem pensamos sobre o que estamos fazendo. Podemos, por exemplo, descascar laranjas pensando no último episódio de Stranger things ou na cotação do dólar. Tirando o risco de cortar fora a ponta do dedoestá tudo bem, porque é uma tarefa manual que pode ser automatizada.

Porém, quando a gente pensa em outras tarefas que envolvem habilidades intelectuais e cognitivas, como dar aulas ou corrigir redações, é preciso tomar cuidado. O risco da automatização é grande: imagina só corrigir dezenas de textos sobre o mesmo tema. Pensa, então, em explicar, várias vezes, como construir uma argumentação estratégica. Parece sempre a mesma coisa, logo, requereria a mesma explicação, certo? Errado. Nós não somos bonecos que repetem frases.

Oh!

Mesmo as explicações mais engessadas, como as gramaticais, por exemplo (campo cujas regras não mudam, independente do texto),  podem ser diferentes de aluno para aluno. Isso porque cada estudante tem habilidades e dificuldades distintas: se eu cometo desvios sistemáticos de crase, talvez dizer que “a regência do verbo não requer o uso de crase” seja uma explicação muito complexa.

Do mesmo modo, se um aluno tem um texto com a tese clara e boas ideias, mas deixa de desenvolver apenas uma delas no decorrer da redação, explicar o que são argumentos, o que é uma tese e como defendê-la é desnecessário, porque grande parte disso ele já sabe (e ouvir tudo de novo pode ser muito entediante).

É preciso ter muita atenção ao nível de dificuldade que o aluno encontra no assunto.

Além disso, cada turma tem a sua especificidade. Algumas são compostas por alunos que interagem mais entre si, que gostam de jogos de computador e de Kpop. Outras podem ter alunos menos integrados, que gostam de praticar esporte e escutam funk. Os exemplos utilizados em sala e os textos que comporão as coletâneas das propostas serão os mesmos para essas duas turmas? É evidente que não! Então, é importante, também, se atentar ao perfil dos alunos, porque isso te ajudará a se conectar com eles.

Por fim, é preciso entender que nem sempre o que é muito óbvio para nós é igualmente claro para o nosso interlocutor. Eu e você fizemos toda uma graduação em Letras e trabalhamos já há um bom tempo com redações, mas os alunos não. Por isso, não adianta a minha correção ser correta e impecável se eu utilizar termos técnicos que são incompreensíveis para o estudante.

É preciso adaptar o discurso de correção ao aluno e jamais perder de vista que ele é exatamente isso: um aluno.

Nem sempre as nossas dicas surtem efeito imediato – e todos sabemos muito bem disso. Por vezes, repetimos as mesmas coisas, para os mesmos alunos, recorrentemente. Nessas horas, é interessante pensar que, talvez, o modo de explicar não esteja sendo claro o suficiente. 

Não adianta nada repetirmos ad eternum as mesmas explicações se, por mais completas que elas sejam, não cumprem sua única função: ensinar.

blablablablabla

Se pensarmos em botar a mão na massa, há algumas práticas que podem tornar uma correção bem mais clara para os nossos alunos:

1. Dê exemplos:
Tudo fica mais claro se estiver exemplificado. E aqui é o momento de usar o dossiê sobre aquele aluno que você vem construindo desde o começo do ano letivo. Se ele gosta de séries, procure, primeiro, os exemplos nessa área; se ela gosta de música, recorra a essa arte, e assim por diante.

2. Seja claro(a)!
Por mais que seja muito bom demonstrar erudição, a correção de redação não é o momento para fazer isso. Vá direto ao ponto e seja o mais básico(a) possível.

3. Faça marcações no texto!
As marcações tornam a correção visualmente mais clara para o aluno e são importantíssimas para que ele entenda exatamente em qual parte do texto está o problema. É difícil, muitas vezes, entender falhas argumentativas se o(a) professor(a) não aponta em qual linha isso aconteceu.

4. Deixe comentários!
Uma crase ou vírgula faltante é fácil de corrigir: a gente põe. Mas e se falta um elemento na proposta de intervenção do ENEM? Basta dar nota 160 na C5 e pronto? Mas qual elemento estava faltando? Ou, então: dei nota 160 na C4 porque o aluno usou apenas um operador argumentativo no texto, mas em que lugar ele poderia ter colocado outro para ter nota máxima?

5. Seja organizado(a) no seu discurso!
A organização na explicação – seja oral ou escrita – é muito importante, e um modo de fazer isso é ir do começo para o fim do texto:

Introdução
Contextualização, tese, projeção dos argumentos

Desenvolvimento
Tópico frasal, argumento, repertório sociocultural e conclusão do parágrafo

Conclusão
Retomada do tema e proposta de intervenção

Seguir essa ordem evita que você tenha que ficar indo e voltando no texto, assim como o aluno. Além disso, o texto segue uma linha lógica em que todas as três partes estão interligadas: um bom desenvolvimento depende de uma boa delimitação da tese e dos argumentos na introdução, não é? Fica mais fácil explicar esse problema se o aluno, previamente, tiver entendido que a tese dele não está clara, ou que ele deveria ter apontado uma prévia dos argumentos na introdução para ter um norte na hora de escolher quais e quantas ideias desenvolver nos parágrafos de desenvolvimento.

Tendo em vista essa lógica de encadeamento, a última dica é: peça aos alunos para investirem no parágrafo de introdução. 

A introdução é o esqueleto do texto, pois é nesse parágrafo que o aluno explica qual o tema que ele vai discutir e sob quais perspectivas. Se a introdução está bem construída, ela serve como uma guia para os parágrafos argumentativos. Do contrário, se ela está confusa, desorganizada ou com muitos elementos diferentes, o aluno não terá nenhum norte para o encadeamento das ideias. 

Infelizmente, um dos motivos que levam muitas pessoas a desvalorizarem o trabalho de um(a) corretor(a) de redações e o discurso “mas você só lê o texto e corrige a gramática“. Mas, como conversamos nesse post, a realidade é muito diferente dessa declaração, não é mesmo? Um ótimo jeito de rebater essas críticas, portanto, é valorizar o nosso trabalho quando mostramos que ele não é automático, assim como o de nenhum professor jamais será.



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Escrito Por
Jéssica Angeli

Professora de francês, literatura e redação. Formada em Letras pela UNESP Araraquara. Faz parte da equipe da Pontue e do @AceleraProf.

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